domingo, 12 de julho de 2009

Xexé: meu tio favorito

Os irmãos de minha mãe, tio Xexé e tio Guri, não eram chegados as lidas do campo e trataram de sair daquele cafundó que era o Rincão da Serra e se mandaram para Santa Cruz, onde aprenderiam o ofício de aprendiz de alfaiate.

Logo tio Guri começou a namorar uma professora, casou e ficou morando por lá.

Mas, Tio Xexé queria alçar voos mais altos e um dia pegou o trem e foi tentar a vida em Porto Alegre, onde conseguiu colocação nas Casas Guaspari, no fim da avenida Borges de Medeiros. Era um prédio com vários andares, especializada em roupas masculinas, as mais refinadas da época. Meu tio tornou-se um "expert " em tecidos e com um simples toque dava a sua origem e procedência.

Uma vez por ano, tio Xexé visitava meu avô e os irmãos – quando minha avó já falecida. Cumprida a missão voltava correndo para Porto Alegre. Mas, como ele sempre se hospedava na casa de meus pais, a nossa afinidade com ele era maior.

Em 1949, minha mãe precisava fazer uma cirurgia delicada e nós fomos para a capital onde os recursos eram melhores.

Tio Xexé nos recebeu e acomodou na pensão da dona Josefina, no Edifício Secco, na rua Pinto Bandeira, bem no centro da capital, onde ele também alugava um quarto, inclusive com as refeições. E lá ficamos até minha mãe se recuperar da cirurgia.

Certo dia, tio Xexé apareceu com ingressos para uma peça de teatro que se apresentava no Coliseu, com a atriz de teatro de revista, Alda Garrido. Fiquei muito feliz e assustada com a idéia de conhecer um teatro de verdade. O Coliseu ainda era considerada uma boa sala de espetáculos. Lá também assisti ao Procópio Ferreira em “Deus lhe Pague”.

Na Porto Alegre daquela época era sagrado, aos domingos, ir ao “Prado” na Independência. Tio Xexé tinha uma queda por corridas de cavalos e quando ele me levou pela primeira vez achei que estava em outro mundo: o local, as pessoas, tudo me deixou de boca aberta.

Na esquina da Santa Casa, nós dois tomamos o bonde “Independência” que nos deixou na frente do hipódromo.

Nas cocheiras, onde só entravam os proprietários, tio Xexé tinha uma potranca que era o xodó dele e assim fomos logo para as baias, onde estava a égua “Suzana”.

Logo apareceu o tratador para relatar a semana da égua: treino de corridas e galopes, banhos, escovadas, alimentação, saúde e etc. Enquanto o tratador falava tio Xexé ficava alisando a cabeça da égua, fazendo carinho e cochichando algumas palavras de incentivo.
Em seguida fomos fazer as apostas e esperar a largada do páreo.
Foi quando vi as pessoas se transformarem: todas levantavam e aos gritos e acenos torciam pelo cavalo da aposta até o final. Os perdedores rasgavam os bilhetes e corriam até os guichês para apostar na próxima corrida.

Manter um cavalo no Prado era muito caro: aluguel de baia, salário do tratador, capinha para o cavalo usar nos dias de frio, medicação... Enfim, acho que tio Xexé gastava quase todo seu salário com a égua Suzana.

Solteiro convicto, meu tio nunca se casou.
Na família de minha mãe sempre existiram muitos solteiros e solteiras, inclusive entre os da última geração, por isso imagino que tio Xexé se permitia esses pequenos prazeres: teatro, Prado, manter a égua e outros.

Ele tinha muitos amigos e às vezes todos almoçavam juntos na pensão da d. Zefa, que era uma grande cozinheira. Mas, às vezes, era visitado por umas “amigas”, as cunhadas desquitadas do tio Guri, que vieram embora para morar em Porto Alegre...

Tio Xexé era um homem muito discreto, fino e elegante, que trajava muito bem. Tinha a aparência de um fidalgo espanhol. Tez pálida, cabelo liso e penteado para trás.

Um dia, em 1953, estava sentado na cama conversando com amigos quando sofreu um ataque de coração, fulminante.

O meu irmão Ata e um rapaz chamado Yvon (que alugava um quarto da dona Miloca, mas fazia as refeições na dona Zefa) prepararam tudo para o transporte do corpo do tio Xexé até Vera Cruz, onde foi enterrado. Ele deveria ter uns 58 anos e seu pai, meu avô, ainda era vivo e aquele velório triste, com poucas pessoas aconteceu na nossa própria casa.

E a égua Suzana? Foi vendida, a coitada, para um sitiante e dizem que até carroça acabou puxando...




Ninico, Julião, Felício...


Vó Abílio e vó Maria Inácia
Meu bisavô chamava-se Antônio dos Santos Moraes e era casado com minha bisavó Maria Luiza, segundo contavam, moça de fino trato.Tiveram dois filhos: meu avô Abilio e tia Brandina ou mana Branda, como era carinhosamente chamada pelo irmão.Tia Brandina casou e foi morar no Albardão.

Meu avô Abílio ficou tomando conta das terras herdadas no Rincão da Serra e casou com minha avó, Maria Inácia. Tiveram oito filhos, cinco homens e três mulheres. Minha mãe, Florinda, era a mais nova e nasceu em 1909.


O meu bisavô era conhecido pelo apelido de Ninico e diziam na família que ele era um homem de mau gênio, de poucos amigos e que tivera filhos fora do casamento.

Com as terras herdou alguns escravos e um remanescente daquela época era o mulato Julião, que morava em Vera Cruz e fazia chantagem com tio Guri, irmão de minha mãe: quando se encontravam, tio Guri logo metia a mão no bolso para lhe dar uma moeda e não ser identificado como parente.

Era um trato que os dois tinham firmado, porque Julião era chegado num trago e meu tio, muito orgulhoso, não queria saber desse parentesco.
Nós levávamos essa estória na brincadeira.

Ainda sobre o bisa Ninico: quando meu irmão Ata fazia uma arte ou uma brincadeira maldosa, minha tia Sizilina e as primas Guigui e Lurdes comparavam:
- Já está o Ninico aprontando...

Meus avós maternos também moravam no Rincão, mas para chegar até a casa deles era um sacrifício: o carro seguia pela estrada principal, pegava outra, vicinal, e depois rodava outro tanto até chegar na porteira. Dali seguia por uma trilha até chegar em frente a outra porteira, essa sim na frente da casa. Não sei por que ela foi construída tão no fundo do campo. Talvez, porque antigamente ficasse perto da casa do meu bisavô que era dono de tudo por aquelas bandas.


Lá não chamavam as propriedades de fazendas e sim “dono de terras” e naquela época tudo era muito rude e simples, sem conforto algum.

A lembrança que guardo de meus avós é do tempo em que eram bem idosos. Portanto não alcancei os áureos tempos. As pessoas que lá trabalhavam foram sumindo e restaram as estórias como a do Felício que ajudava minha avó mexer a marmelada ou figada. Quando ela dava o doce por pronto Felício sempre dizia:

- Eu se fosse você, siá Maria Inácia, deixava mais um pocadinho.

De outra vez Felício encilhou o cavalo num domingo e foi visitar a namorada. Mas não demorou muito, voltou. Minha avó surpresa, perguntou:

- Ué, Felício já de volta ?
- Pois é siá Maria Inácia... Eu ia indo quando senti uns arrancão no cú, uma vontade loca de cagá e achei mió voltá.

Minha avó ficou sem saber o que dizer.

Quando ela faleceu, meu avô e a velha siá Manuela, uma descendente de escrava e antiga empregada da casa, foram morar com minha tia Sizilina e tio Redo.

Deixaram para trás a casa de tijolos erguida com barro, as figueiras, as laranjeiras, o banhado cheio de sapos e os nenúfares floridos.



sábado, 7 de fevereiro de 2009

Quebra-Quebra que não foi

Certa noite meu pai foi convidado para uma reunião com seu Pedro Souza, o Vice- Prefeito e autoridade máxima da Vila Tereza.

Ele mantinha a ordem com a ajuda de dois brigadianos e era muito respeitado.

Mas, chegando lá, meu pai encontrou outras pessoas também foram convocadas. Seu Pedro participou que tinha recebido um comunicado muito estranho. Estava se deslocando de Sta. Cruz um caminhão com uns quinze baderneiros, armados de paus e pedras, para promover um quebra - quebra no comércio e demais propriedades na Vila.


Convidou então os presentes para um mutirão. Todos apavorados com o inesperado, concordaram em ajudar. Era a guerra chegando na Vila Tereza.


Meu pai voltou para casa afobado, mal contou o que estava acontecendo, colocou o revólver na cintura, passou mão na espingarda de caça e saiu na disparada.


Lembro que fiquei muito assustada e comecei a chorar.


Os homens foram se postar próximo da fábrica de bebidas Celina.

A estratégia era impedir a entrada dos arruaceiros na Vila.


Já achando que tinham caido num trote, eles avistaram ao longe o caminhão se aproximando e ficaram atentos.

Quando estavam bem perto, Seu Pedro saltou no meio da estrada, levantou o braço e mandou o motorista parar. Em seguida foram cercados e receberam ordem de voltar.


Como eles queriam surprender e foram surpreendidos botaram a viola no saco e voltaram para Sta. Cruz e o problema foi resolvido sem derramamento de sangue. Naquela época era comum estes ataques às fábricas e lojas, cujos donos ou fundadores eram alemães natos ou descendentes.


Quando Getúlio Vargas se suicidou também ouve quebra-quebra em Porto Alegre.

Assisti da sacada do meu quarto o povo quebrando e colocando fogo na cervejaria Brahma, mas esta história conto outra hora....

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Flash da Segunda Guerra Mundial

Quando a guerra foi declarada eu era muito criança, mas guardo algumas lembranças daquela época.

Na Linha Sítio, vilarejo onde nasci, os moradores eram praticamente todos de origem alemã.

As famílias, de um modo geral, eram ligadas por parentescos.

Além dos agricultores haviam umas duas ou três bodegas, uma selaria, o curtume, sapateiro, salão de baile, serraria e o engenho, duas igrejas, uma católica e uma luterana, cada uma com seu cemitério para enterrar os seus fiéis. E também duas escolas: uma para cada religião.

Meu pai, um dentista (prático licenciado) e proprietário do único carro da Vila (Ford de Bigode), muitas vezes era solicitado para levar algum doente para o hospital em Vila Tereza ou Santa Cruz, já que as locomoções da época eram feitas praticamente de carroça ou à cavalo.

A água era do poço e a luz de lampeão ou vela. Nós tinhamos luz de carboreto, o precursor do "liquinho".

A comunicação com o mundo era feita através de um rádio, estilo capelinha, ligado numa bateria. Não tenho lembrança de existir outro rádio na vila e por isso alguns homens vinham à noite para ouvir alguma notícia.

Praticamente as pessoas só falavam em alemão e tinham muita curiosidade em saber notícias da guerra. As cartas de conhecidos e parentes que moravam na Alemanha deixaram de chegar e o jornal "Serra Post", todo escrito em alemão, começou a rarear.

Uma noite flagrei meu pai e mais dois amigos debruçados sobre o rádio ouvindo Hitler discursar. Com meus cinco anos percebi que estavam fazendo algo escondido porque estavam no escuro, com o som baixo e as cortinas cerradas.


De um momento para outro foi proibido falar, ter livros ou revistas escritas em alemão.
Foi uma caça as bruxas e as pessoas mais idosas, que precisavam se deslocar pela cidade, passaram a levar um intérprete para se comunicar. O medo de falar em alemão e ser preso era grande.

Em 1949 nos mudamos para Vila Tereza, hoje Vera Cruz. Tanto o Sítio como Vila Tereza eram distritos de Santa Cruz e só mais tarde foram emancipados.