Os irmãos de minha mãe, tio Xexé e tio Guri, não eram chegados as lidas do campo e trataram de sair daquele cafundó que era o Rincão da Serra e se mandaram para Santa Cruz, onde aprenderiam o ofício de aprendiz de alfaiate. Logo tio Guri começou a namorar uma professora, casou e ficou morando por lá.
Mas, Tio Xexé queria alçar voos mais altos e um dia pegou o trem e foi tentar a vida em Porto Alegre, onde conseguiu colocação nas Casas Guaspari, no fim da avenida Borges de Medeiros. Era um prédio com vários andares, especializada em roupas masculinas, as mais refinadas da época. Meu tio tornou-se um "expert " em tecidos e com um simples toque dava a sua origem e procedência.
Uma vez por ano, tio Xexé visitava meu avô e os irmãos – quando minha avó já falecida. Cumprida a missão voltava correndo para Porto Alegre. Mas, como ele sempre se hospedava na casa de meus pais, a nossa afinidade com ele era maior.
Em 1949, minha mãe precisava fazer uma cirurgia delicada e nós fomos para a capital onde os recursos eram melhores.
Tio Xexé nos recebeu e acomodou na pensão da dona Josefina, no Edifício Secco, na rua Pinto Bandeira, bem no centro da capital, onde ele também alugava um quarto, inclusive com as refeições. E lá ficamos até minha mãe se recuperar da cirurgia.
Certo dia, tio Xexé apareceu com ingressos para uma peça de teatro que se apresentava no Coliseu, com a atriz de teatro de revista, Alda Garrido. Fiquei muito feliz e assustada com a idéia de conhecer um teatro de verdade. O Coliseu ainda era considerada uma boa sala de espetáculos. Lá também assisti ao Procópio Ferreira em “Deus lhe Pague”.
Na Porto Alegre daquela época era sagrado, aos domingos, ir ao “Prado” na Independência. Tio Xexé tinha uma queda por corridas de cavalos e quando ele me levou pela primeira vez achei que estava em outro mundo: o local, as pessoas, tudo me deixou de boca aberta.
Na esquina da Santa Casa, nós dois tomamos o bonde “Independência” que nos deixou na frente do hipódromo.
Nas cocheiras, onde só entravam os proprietários, tio Xexé tinha uma potranca que era o xodó dele e assim fomos logo para as baias, onde estava a égua “Suzana”.
Logo apareceu o tratador para relatar a semana da égua: treino de corridas e galopes, banhos, escovadas, alimentação, saúde e etc. Enquanto o tratador falava tio Xexé ficava alisando a cabeça da égua, fazendo carinho e cochichando algumas palavras de incentivo.
Em seguida fomos fazer as apostas e esperar a largada do páreo.
Foi quando vi as pessoas se transformarem: todas levantavam e aos gritos e acenos torciam pelo cavalo da aposta até o final. Os perdedores rasgavam os bilhetes e corriam até os guichês para apostar na próxima corrida.
Manter um cavalo no Prado era muito caro: aluguel de baia, salário do tratador, capinha para o cavalo usar nos dias de frio, medicação... Enfim, acho que tio Xexé gastava quase todo seu salário com a égua Suzana.
Solteiro convicto, meu tio nunca se casou.
Na família de minha mãe sempre existiram muitos solteiros e solteiras, inclusive entre os da última geração, por isso imagino que tio Xexé se permitia esses pequenos prazeres: teatro, Prado, manter a égua e outros.
Ele tinha muitos amigos e às vezes todos almoçavam juntos na pensão da d. Zefa, que era uma grande cozinheira. Mas, às vezes, era visitado por umas “amigas”, as cunhadas desquitadas do tio Guri, que vieram embora para morar em Porto Alegre...
Tio Xexé era um homem muito discreto, fino e elegante, que trajava muito bem. Tinha a aparência de um fidalgo espanhol. Tez pálida, cabelo liso e penteado para trás.
Um dia, em 1953, estava sentado na cama conversando com amigos quando sofreu um ataque de coração, fulminante.
O meu irmão Ata e um rapaz chamado Yvon (que alugava um quarto da dona Miloca, mas fazia as refeições na dona Zefa) prepararam tudo para o transporte do corpo do tio Xexé até Vera Cruz, onde foi enterrado. Ele deveria ter uns 58 anos e seu pai, meu avô, ainda era vivo e aquele velório triste, com poucas pessoas aconteceu na nossa própria casa.
E a égua Suzana? Foi vendida, a coitada, para um sitiante e dizem que até carroça acabou puxando...
2 comentários:
Uma delícia essas histórias, mãe!
Precisa contar quando tu foi embora para o internato, quando tu foi estudar em Porto Alegre,aquela escola pega-marido, quando conheceu o pai...
Adinha.. A história do Tio Xexé é
rica e bem contada, conseguimos até visualizar a cena.
A Suzana deve ter sentido muito a falta do seu dono pois até carroça acabou puxando.
Abraços dos amigos
Leni e Serginho
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