domingo, 12 de julho de 2009

Ninico, Julião, Felício...


Vó Abílio e vó Maria Inácia
Meu bisavô chamava-se Antônio dos Santos Moraes e era casado com minha bisavó Maria Luiza, segundo contavam, moça de fino trato.Tiveram dois filhos: meu avô Abilio e tia Brandina ou mana Branda, como era carinhosamente chamada pelo irmão.Tia Brandina casou e foi morar no Albardão.

Meu avô Abílio ficou tomando conta das terras herdadas no Rincão da Serra e casou com minha avó, Maria Inácia. Tiveram oito filhos, cinco homens e três mulheres. Minha mãe, Florinda, era a mais nova e nasceu em 1909.


O meu bisavô era conhecido pelo apelido de Ninico e diziam na família que ele era um homem de mau gênio, de poucos amigos e que tivera filhos fora do casamento.

Com as terras herdou alguns escravos e um remanescente daquela época era o mulato Julião, que morava em Vera Cruz e fazia chantagem com tio Guri, irmão de minha mãe: quando se encontravam, tio Guri logo metia a mão no bolso para lhe dar uma moeda e não ser identificado como parente.

Era um trato que os dois tinham firmado, porque Julião era chegado num trago e meu tio, muito orgulhoso, não queria saber desse parentesco.
Nós levávamos essa estória na brincadeira.

Ainda sobre o bisa Ninico: quando meu irmão Ata fazia uma arte ou uma brincadeira maldosa, minha tia Sizilina e as primas Guigui e Lurdes comparavam:
- Já está o Ninico aprontando...

Meus avós maternos também moravam no Rincão, mas para chegar até a casa deles era um sacrifício: o carro seguia pela estrada principal, pegava outra, vicinal, e depois rodava outro tanto até chegar na porteira. Dali seguia por uma trilha até chegar em frente a outra porteira, essa sim na frente da casa. Não sei por que ela foi construída tão no fundo do campo. Talvez, porque antigamente ficasse perto da casa do meu bisavô que era dono de tudo por aquelas bandas.


Lá não chamavam as propriedades de fazendas e sim “dono de terras” e naquela época tudo era muito rude e simples, sem conforto algum.

A lembrança que guardo de meus avós é do tempo em que eram bem idosos. Portanto não alcancei os áureos tempos. As pessoas que lá trabalhavam foram sumindo e restaram as estórias como a do Felício que ajudava minha avó mexer a marmelada ou figada. Quando ela dava o doce por pronto Felício sempre dizia:

- Eu se fosse você, siá Maria Inácia, deixava mais um pocadinho.

De outra vez Felício encilhou o cavalo num domingo e foi visitar a namorada. Mas não demorou muito, voltou. Minha avó surpresa, perguntou:

- Ué, Felício já de volta ?
- Pois é siá Maria Inácia... Eu ia indo quando senti uns arrancão no cú, uma vontade loca de cagá e achei mió voltá.

Minha avó ficou sem saber o que dizer.

Quando ela faleceu, meu avô e a velha siá Manuela, uma descendente de escrava e antiga empregada da casa, foram morar com minha tia Sizilina e tio Redo.

Deixaram para trás a casa de tijolos erguida com barro, as figueiras, as laranjeiras, o banhado cheio de sapos e os nenúfares floridos.



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