Quando a guerra foi declarada eu era muito criança, mas guardo algumas lembranças daquela época.Na Linha Sítio, vilarejo onde nasci, os moradores eram praticamente todos de origem alemã.
As famílias, de um modo geral, eram ligadas por parentescos.
Além dos agricultores haviam umas duas ou três bodegas, uma selaria, o curtume, sapateiro, salão de baile, serraria e o engenho, duas igrejas, uma católica e uma luterana, cada uma com seu cemitério para enterrar os seus fiéis. E também duas escolas: uma para cada religião.
Meu pai, um dentista (prático licenciado) e proprietário do único carro da Vila (Ford de Bigode), muitas vezes era solicitado para levar algum doente para o hospital em Vila Tereza ou Santa Cruz, já que as locomoções da época eram feitas praticamente de carroça ou à cavalo.
A água era do poço e a luz de lampeão ou vela. Nós tinhamos luz de carboreto, o precursor do "liquinho".
A comunicação com o mundo era feita através de um rádio, estilo capelinha, ligado numa bateria. Não tenho lembrança de existir outro rádio na vila e por isso alguns homens vinham à noite para ouvir alguma notícia.
Praticamente as pessoas só falavam em alemão e tinham muita curiosidade em saber notícias da guerra. As cartas de conhecidos e parentes que moravam na Alemanha deixaram de chegar e o jornal "Serra Post", todo escrito em alemão, começou a rarear.
Uma noite flagrei meu pai e mais dois amigos debruçados sobre o rádio ouvindo Hitler discursar. Com meus cinco anos percebi que estavam fazendo algo escondido porque estavam no escuro, com o som baixo e as cortinas cerradas.
De um momento para outro foi proibido falar, ter livros ou revistas escritas em alemão.
Foi uma caça as bruxas e as pessoas mais idosas, que precisavam se deslocar pela cidade, passaram a levar um intérprete para se comunicar. O medo de falar em alemão e ser preso era grande.
Em 1949 nos mudamos para Vila Tereza, hoje Vera Cruz. Tanto o Sítio como Vila Tereza eram distritos de Santa Cruz e só mais tarde foram emancipados.
2 comentários:
Aí Dona Ada,
Estou amando ouvir suas histórias.
Tem muita coisa para contar e eu tenho ouvidos bem abertos para escutar e imaginar suas histórias.
Lindas!
Estou conhecendo personagens e reconhecendo outros.
Mas não esqueça de postar suas receitas que também deixaram muitas memórias salivares.
Parabéns pelos belos textos e por fazer parte da "WEB".
meu nome e paulo,desculpe mas estou a procura de pessoas que conheçam a senhora sibila scherer,pois ela esta a procura de seus parentes,desde já agradeço e pesso que me desculpe por esta a oculpa seu tempo.
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