sábado, 7 de fevereiro de 2009

Quebra-Quebra que não foi

Certa noite meu pai foi convidado para uma reunião com seu Pedro Souza, o Vice- Prefeito e autoridade máxima da Vila Tereza.

Ele mantinha a ordem com a ajuda de dois brigadianos e era muito respeitado.

Mas, chegando lá, meu pai encontrou outras pessoas também foram convocadas. Seu Pedro participou que tinha recebido um comunicado muito estranho. Estava se deslocando de Sta. Cruz um caminhão com uns quinze baderneiros, armados de paus e pedras, para promover um quebra - quebra no comércio e demais propriedades na Vila.


Convidou então os presentes para um mutirão. Todos apavorados com o inesperado, concordaram em ajudar. Era a guerra chegando na Vila Tereza.


Meu pai voltou para casa afobado, mal contou o que estava acontecendo, colocou o revólver na cintura, passou mão na espingarda de caça e saiu na disparada.


Lembro que fiquei muito assustada e comecei a chorar.


Os homens foram se postar próximo da fábrica de bebidas Celina.

A estratégia era impedir a entrada dos arruaceiros na Vila.


Já achando que tinham caido num trote, eles avistaram ao longe o caminhão se aproximando e ficaram atentos.

Quando estavam bem perto, Seu Pedro saltou no meio da estrada, levantou o braço e mandou o motorista parar. Em seguida foram cercados e receberam ordem de voltar.


Como eles queriam surprender e foram surpreendidos botaram a viola no saco e voltaram para Sta. Cruz e o problema foi resolvido sem derramamento de sangue. Naquela época era comum estes ataques às fábricas e lojas, cujos donos ou fundadores eram alemães natos ou descendentes.


Quando Getúlio Vargas se suicidou também ouve quebra-quebra em Porto Alegre.

Assisti da sacada do meu quarto o povo quebrando e colocando fogo na cervejaria Brahma, mas esta história conto outra hora....

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Flash da Segunda Guerra Mundial

Quando a guerra foi declarada eu era muito criança, mas guardo algumas lembranças daquela época.

Na Linha Sítio, vilarejo onde nasci, os moradores eram praticamente todos de origem alemã.

As famílias, de um modo geral, eram ligadas por parentescos.

Além dos agricultores haviam umas duas ou três bodegas, uma selaria, o curtume, sapateiro, salão de baile, serraria e o engenho, duas igrejas, uma católica e uma luterana, cada uma com seu cemitério para enterrar os seus fiéis. E também duas escolas: uma para cada religião.

Meu pai, um dentista (prático licenciado) e proprietário do único carro da Vila (Ford de Bigode), muitas vezes era solicitado para levar algum doente para o hospital em Vila Tereza ou Santa Cruz, já que as locomoções da época eram feitas praticamente de carroça ou à cavalo.

A água era do poço e a luz de lampeão ou vela. Nós tinhamos luz de carboreto, o precursor do "liquinho".

A comunicação com o mundo era feita através de um rádio, estilo capelinha, ligado numa bateria. Não tenho lembrança de existir outro rádio na vila e por isso alguns homens vinham à noite para ouvir alguma notícia.

Praticamente as pessoas só falavam em alemão e tinham muita curiosidade em saber notícias da guerra. As cartas de conhecidos e parentes que moravam na Alemanha deixaram de chegar e o jornal "Serra Post", todo escrito em alemão, começou a rarear.

Uma noite flagrei meu pai e mais dois amigos debruçados sobre o rádio ouvindo Hitler discursar. Com meus cinco anos percebi que estavam fazendo algo escondido porque estavam no escuro, com o som baixo e as cortinas cerradas.


De um momento para outro foi proibido falar, ter livros ou revistas escritas em alemão.
Foi uma caça as bruxas e as pessoas mais idosas, que precisavam se deslocar pela cidade, passaram a levar um intérprete para se comunicar. O medo de falar em alemão e ser preso era grande.

Em 1949 nos mudamos para Vila Tereza, hoje Vera Cruz. Tanto o Sítio como Vila Tereza eram distritos de Santa Cruz e só mais tarde foram emancipados.