domingo, 2 de novembro de 2008

CAMBOTA, UM PRIMO DISTANTE

Meu pai tinha um primo que morava com os irmãos em Santa Cruz.


Por uma dessas infelicidades ele nasceu com uma deficiência óssea.
Teve várias fraturas nas pernas e passou a se locomover com muletas.
Tinha o apelido de Cambota e só mais tarde fui entender o porque do apelido.
Apesar da deficiência e dores que deveria sentir era uma pessoa muito bem humorada e querida por todos.


Eu e meu irmão eramos crianças e ficavamos num contentamento só quando meu pai aparecia com o Cambota para passar uns dias lá em casa.

Ele nos encantava contando estórias inventadas na hora como se fossem verdadeiras. Outro modo de nos distrair era fazendo teatro de sombra na parede com as mãos. Com minha mãe ficava em altos papos conversando horas, acho que ela desabafava algumas contrariedades sobre meu pai.
Ele ironizava, brincava, consolava e no fim ouviamos os dois dando boas risadas.

Era uma tristeza quando meu pai levava o Cambota de volta para casa.

Quando Cambota ficou adulto quis aprender uma profissão para não pesar na família e foi ser sapateiro.
Foi um ótimo profissional, tanto que mais tarde foi com os irmãos para Porto Alegre.
Alugou um quarto na casa de um português e abriu uma sapataria na Independência.


Quando fui estudar em Porto Alegre procurei o Cambota na sapataria e ele ficou muito contente de me ver. Me contou como era a vida dele e como era bem acolhido pela familia do português.

Gostava também de saber de mim, do meu irmão e dos meus pais.
Eu ficava horas conversando sentada num banquinho e ele trabalhando e atendendo a freguesia.


Numa dessas visitas ele me contou que tinha se ajeitado com a filha do português.
Fiquei muito admirada mas feliz por ele ter finalmente uma família dele mesmo.


Mais tarde viemos de muda para Lajeado e nunca mais soube do Cambota.

Devido a idade hoje ele deve estar flutuando entre as nuvens e finalmente dispensado as muletas.